Sebastião Salgado e outros fotógrafos foram acusados de se beneficiarem das imagens de sofrimento que captaram. Como você se sente sobre isso e alguém já o criticou de maneira semelhante?


É claro, já aconteceu antes e irá acontecer novamente. Isso é normal. Mas minha consciência está perfeitamente limpa. Eu acho que apresento quem fotografo da maneira justa, dando-os o respeito merecido. Também não estou moralizando, ou pregando algo, ou fingindo estar salvando o mundo. Sou apenas um observador documentando o que acontece.

 

 


Giorgio Di Mitri o chamou de "o fotógrafo que mais trabalha duro hoje", saindo dia após dia após dia para fotografar os seus projetos. Você está realmente fotografando todos os dias?


Eu vivo fotografia. Mesmo quando não estou fotografando, sempre estou pensando na próxima grande foto. E minha camera está sempre comigo, mesmo quando estou levando o lixo para fora de casa tenho uma camera compacta em meu bolso. Eu nunca tiro ferias da fotografia.

 

 


Família versus realidade de rua. Como isso funciona? Agora que você tem uma filha e uma esposa, você acha que irá se arriscar menos? Algo mudou?


Eu não acho que me arrisquei demais, sempre fui cuidadoso e sempre segui o meu instinto. Sempre que senti que algo estava errado eu saia do local. Não há fotos pelas quais valha a pena morrer. Mas claro, ter uma filha deu novo sentido à minha vida e me inspirou a trabalhar ainda mais. A maneira que eu enxergo o mundo mudou completamente e eu diria que mudou para melhor. Eu não preciso mais de armas ou agulhas para me inspirar. Eu vejo beleza em toda a minha volta e isso me faz sentir bem.

 

 


Como foi a sua experiência em São Paulo? Como foi fotografar aqui? Você tinha contatos locais? O que você estava esperando antes e o que achou depois?


A sensação dominante em São Paulo é de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. Caminhar era cansativo porque eu tinha que ficar esperto o tempo todo. Era fotografia de guerrilha de certa forma. Eu fotografava rapidamente, mudava de locação, e voltava a fotografar. É uma cidade estranha com uma energia estranha. Comunicação era um grande problema porque poucos falam inglês.

Estive lá por uma semana e por uns três ou quatro dias fiquei com algumas pessoas locais. Isso ajudou muito. Eu não tinha idéia do que esperar. Pessoas estavam tentando me assustar com histórias de sequestros e roubos a mão armada, mas eu estive ok. É perigoso, mas não é Bagdá, você sabe.

 

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