Terror
na Montanha Russa
Entre
milhares de histórias de viagem essa é
uma particularmente diferente. Mil novecentos e noventa
e alguma coisa. Eu e Fernando Costa Netto, o Dandão,
companheiro de viagem à fabulosa Ilha
de Trindade, estávamos on assignment,
cobrindo o campeonato
mundial de jacaré, oops-surf de peito,
ou bodysurfing, tradicionalmente realizado em Oceanside,
e iamos ficar hospedados na casa do Mark, um americano
que o Dandão havia conhecido em El Salvador
quando os dois eram os únicos loucos a surfar
por lá durante a guerra civil que assolava
o país. O Mark trabalharia até as seis
da tarde naquele dia, e nós chegamos com nosso
carro alugado em San Diego lá pelas três
da tarde.
Para
matar o tempo fomos até o Mission
Bay Park e tivemos a idéia de dar uma volta
na montanha russa Giant
Dipper. A montanha russa construída em
1925 tem um drop impressionante e eu tive a idéia
de sentar no primeiro carro, na primeira fila, e fotografar
o ponto de vista de quem está dando uma volta
no brinquedo. Mais especificamente: o ponto de vista
de quem atinge 73 kilometros por hora enquanto despenca
de 23 metros de altura. Pagamos US$ 6 cada um, sentamos
na primeira fila, e na hora do drop estiquei meus
braços, levantei a minha câmera com uma
lente olho de peixe, e acionei o motor drive a 5 fotos
por segundo. Na primeira curva olhei para a minha
câmera e a lente não estava mais lá!
Eu não podia acreditar. Olhei e vi a lente
aos meus pés. A barra de proteção
me impedia de alcança-la, e após mais
uma curva brusca, a lente desapareceu. Passei o restante
da volta xingando alto. Quando a montanha russa parou,
avisei o atendente sobre o ocorrido e ele me encaminhou
ao setor de achados e perdidos, onde preenchi um formulário.
Coisa de lugar civilizado.
Não
havia mais o que fazer, então fomos almoçar.
Chinese takeout, perto dali. Após degustar
um frango xadrez super oleoso, Dandão colocou
a sua pasta sobre o teto do carro alugado, entrou
no carro e fomos embora, esquecendo-se completamente
da pasta. No primeiro u-turn proibido, a pasta voou
longe mas só percebemos quando estavamos em
uma freeway com uma linda vista do skyline
de San Diego e o Dandão esticou a mão
atrás do banco para pegar a sua agenda na pasta
para conferir o endereço do Mark. Em segundos
ele estava em pânico. Ficou verde, azul, vermelho,
e roxo. Na pasta estavam a sua Nikon
F velha de guerra, a sua agenda, uma passagem
para o Havaí que ele recém havia comprado,
e outros documentos importantes. Nem lembro se o passaporte
também estava lá. Tentando acalma-lo
sugeri que fossemos direto para o aeroporto para resolver
a sua passagem. Seria sua primeira viagem ao Havaí
e essa era a prioridade. No balcão da companhia
aérea ele cancelou o ticket perdido, solicitou
o reembolso do valor, e comprou um novo bilhete. Pelo
menos a viagem para Oahu estava garantida. Aproveitando
o bom humor do atendente pedimos para usar o telefone.
Ligamos para o parque para perguntar se alguém
havia encontrado alguma coisa. Para nossa surpresa,
disseram que na inspeção da pista da
montanha russa haviam encontrado a minha lente! Fomos
voando para lá.
Ao
chegar no departamento de achados e perdidos devolveram
a minha lente e fiquei estupefato: fora um pequeno
amassado no para-sol de metal não havia dano
algum. O diafragma e anel de foco funcionavam perfeitamente
e não havia sequer um risco no elemento frontal
ou traseiro. Milagre: a objetiva havia rolado para
fora do carrinho e caído na base da pista em
um pequeno trecho de areia. Enquanto eu olhava admirado
para a minha olho de peixe sobrevivente, o telefone
tocou e após alguns segundos o atendente nos
indagou: vocês perderam uma pasta com uma câmera
e uma agenda? Não podiamos acreditar na nossa
sorte. Uma motorista havia visto o u-turn proibido
do Dandão, a pasta voando, e parou para tira-la
da pista, mas não antes que um carro passasse
por cima dela. Esta motorista havia perdido o seu
passaporte em Amsterdam em uma viagem anterior e se
sentiu na obrigação de tentar localizar
o dono da pasta. Na agenda do Dandão, na data
do dia estava o ticket da montanha russa, e a pessoa
que encontrou a pasta ligou para lá no exato
momento em que estavamos pegando a minha lente perdida.
Em
questão de algumas horas, perdemos itens importantes
e os recuperamos, e ficamos incrédulos com
a nossa sorte.
A
Nikon F do Dandão sobreviveu ao atropelamento
com um pequeno amassado no finder, meramente estético.
Comemoramos com o Mark até altas horas tomando
tequila em um restaurante mexicano, e no dia seguinte
a nossa maré de sorte terminou: na final do
campeonato mundial de surf de peito, não haviam
ondas e o mar estava flat. |