JBORGES O REI DA LITERATURA DE CORDEL
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JBORGES, Mestre do Cordel e Xilogravura


É domingo em Bezerros, no interior do Pernambuco, e Jose Francisco Borges, 68 anos, sorri ao lado de seus filhos. O sorriso vem naturalmente, e a gargalhada que se segue tambem. JBorges, como é conhecido mundialmente, aproveita os domingos para visitar os sitios dos amigos e passear pela cidade.


JBorges é um dos mestres do cordel, um dos artistas folclóricos mais celebrados da América Latina e o xilogravurista brasileiro mais reconhecido no mundo. Começou tarde, aos vinte anos, vendendo folhetos de cordel. Antes, trabalhou na roça, foi pintor, carpinteiro, e pedreiro, mas lembra que aprendeu a ler e a escrever para conseguir ler os versos de cordel. Publicou o seu primeiro cordel em 1964, "O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina", com ilustrações de Dila. Vendeu cinco mil exemplares em sessenta dias, o que o deixou realizado. O artista revela que teve que aprender a fazer as próprias gravuras para ilustrar os seus folhetos. "Comecei escrevendo cordel, e precisei ilustrar o cordel. Peguei um pedaço de madeira, plainei, ai eu fiz. Levei na grafica pra fazer uma prova, e vendi bem. Ai parti para fazer o segundo. Quando eu ja estava com tres ou quatro publicados, outros cordelistas pediram desenhos pra mim. Passei cinco ou seis anos só fazendo isso, pra mim comer. Ai depois surgiu esse pessoal de fora pedindo pra fazer maior." Ja escreveu e ilustrou mais de duzentos cordeis e perdeu a conta do número de gravuras.


O reconhecimento veio quando o escritor Ariano Suassuna descobriu o seu trabalho e o designou como o maior artista popular do nordeste. "Ariano disse que eu era o melhor, e o povo acreditou, e ai o serviço foi aumentando." Depois, foi convidado a dar aulas na Universidade do Novo México, e para expor no Texas e na Europa. Suas xilogravuras ilustram o livro "As Palavras Andantes", do escritor uruguaio Eduardo Galeano, e foi o único artista latino americano a participar do calendário da Unicef. Em 1999, recebeu de Fernando Henrique Cardoso o prêmio de Honra ao Mérito Cultural do Ministério da Cultura.


Hoje, Borges já ilustrou capas de cordéis, livros, discos, e já expôs nos Estados Unidos, Venezuela, Alemanha, Suiça, México e Venezuela. Em uma turnê européia, J. Borges percorreu 20 países. Foi tema de uma reportagem no jornal The New York Times, que o apontou como um gênio da arte popular.


"Depois da materia do New York times passei a vender mais nos Estados Unidos. Antes vendia uma vez por ano, agora vendo mais de um grande pedido por ano. A divulgação ajudou muito. Essas materias de jornal ajudam bastante. Nos anos setenta e oitenta era muita gente visitando, pesquisando, nos anos noventa foi caindo, caindo, chegou quase a zero. Agora esta voltando. Não sei porque, é uma coisa meio misteriosa. O cordel chegou a beira da cova nos anos noventa. Antes eu publicava dez mil copias de cada cordel. Em 95, cheguei a fazer quinhentos exemplares, achei que ia acabar mesmo. Mas depois começou a melhorar um pouco, e agora estou tirando três ou quatro mil exemplares de cada cordel. "


Mesmo com tantos premios, J.Borges continua humilde e modesto. Ganha o suficiente para sustentar sua extensa família, e as duas ex-esposas. Passa adiante seus conhecimentos a alguns de seus dezoito filhos (dez ainda vivos), que o ajudam na entrega de grandes encomendas. Sabe que apesar da fama atual, o reconhecimento maior é sempre póstumo:

"O meu nome é hoje muito falado, mas não chega um quarto do que vai ser depois do meu fim"


Hoje em dia continua trabalhando, produzindo obras sob encomenda. Sobre o futuro do cordel, diz: "Hoje escrevo muito humor, a vida anda um pouco sacrificada né, o povo ouve tanta cena de miséria por ai, então o cordel entrou com humor e está vendendo muito. Só não tá vendendo mais o cordel porque acabou os cordelistas de feira. Antes tinha muito, voce andava em Caruaru e tinha seis ou sete cantando, hoje voce nao encontra nenhum. Voce encontra alguem vendendo estacionado, mas aquela roda inteira, não existe mais. Agora tem algum na Paraiba, e algum no Alagoas. Por aqui não tem mais, ficaram velhos, uns foram embora pra SP, e desapareceram. E tem alguns que ainda estão no ramo, mas, quando o cara chega a certa idade fica dificil, e o cordel precisa de muito jogo de cintura pra vender, tem que fazer um pouco de humor, que é para o povo querer comprar, né? Os novos não querem nada, você pode dar um milhão e você ve os jovens com quinze com dezesseis anos pedindo, novo não quer trabalhar, e se acostuma a pedir, e muitas vezes fica marginalizado. Antigamente, eram muitos criados sem escola, sem nada, que partiam para criar cordel, sem pedir nada pra ninguem. Hoje nao trabalham, a mentalidade é outra, não se dedicam a nada, e vão pedir. E depois que o povo não dá, fica com raiva, diz agora não vou mais pedir, vou é roubar. A maioria começa pedindo, e depois se intoxica, se enraiva porque não ganha muito. Entra nisso, e no meu tempo não, no meu tempo ia escrever, estudar, desenhar."