La Paz após várias escalas. 3660 metros. Capital mais alta do mundo. O velhinho francês ajoelha ao descer do avião. Soroche, o mal da altitude. Bagagem. Muita bagagem. Bicicletas, equipamento fotográfico, barraca, saco de dormir, comida. Visual antigo, diesel, ruas estreitas, um hotel perto do palácio do governo. Passagem para Uyuni. Trem descarrilhado em El Alto. Chegada 18 horas depois. Uma cidade pequena, com poucos carros. E muitas bicicletas. Um posto de gasolina. Encruzilhada de trilhos para Argentina e Chile. Conhecemos japoneses na estrada há um ano. Sairam do Alasca de bicicleta. Pedalam separados. Alemães fazem o mesmo a bordo de duas motos BMW. Nenhum brasileiro. O cemitério todo decorado e depois mais nada. O mundo acaba. O Deserto é tão grande. Eu sou tão pequeno. O deserto de Sal. Branco até o horizonte com vulcões negros. Chuva e frio. Um hotel inteiramente construido de blocos de sal. O hotel mais silencioso do mundo. Ruínas pré-incas abandonadas. Múmias roubadas de sítios arqueológicos inexplorados. Almuerzo. Acampamento em uma ilha de cactus gigantes no meio do deserto de sal. Cavernas com formações aparentando coral. Cheiro de mar embaixo da terra 4000 metros acima do mar. Silêncio absurdo. De ouvir o próprio coração batendo. A paisagem se transforma. Lagoas multicoloridas povoadas por flamingos cor de rosa surgem entre montanhas que parecem sundaes derretendo. Ficção científica. Se eu fosse um extraterrestre pousava aqui. Fenômenos geotérmicos, geysers, piscinas de lama borbulhando. Após dias sem banho, o melhor banho da Bolivia em aguas termales. Uma fonte de agua quente. Seguindo sul, chega-se ao deserto Salvador Dali. Faltam só relógios derretendo. Não é uma paisagem deste planeta. Acima dos 4000 metros uma árvore de pedra. Neve. O caminho desaparece. Dormimos em Laguna Colorada, acampando bem abaixo de zero. Meias de alpaca de La Paz, o material da Osklen, e o sleeping bag mais um vino gasolino seguram a onda. Mais estrada até Laguna Verde. Fim da Bolívia, fronteira com o Chile. Na fronteira o vulcão Lincancabur. 5930 metros. Oito horas pra subir, três horas pra descer. Uma cruz no meio da montanha, um holândes que teve problemas cardíacos. As 10:00 da manhã o vento entra e a lagoa muda de cor. O verde fica intenso. Não há ninguém. Sem luz, sem água, sem telefone, sem lixo, ar puro. Isolamento total. Roubadas. 100% Autoconhecimento. Diarréia. Chá de coca. Novamente La Paz. Início no caminhão subindo na caçamba com toda a roupa no corpo. Chuva fria e fina. Carona até 4750 metros, La Cumbre, o topo. Neblina, asfalto molhado e escorregadio. Acima só rocha e neve. Curvas intermináveis. O tempo melhora. Cachoeiras na estrada. Descida rápida na estrada seca. Bicicleta carregada. Um túnel esculpido na pedra. Fim do asfalto. Uma pequena placa indica o nosso destino... Coroico. Pequenos lugares. Chuspipata. Depois o downhill. 80 km de descida, terminando mais de 3000 metros verticais pra baixo. Abismo. Mão inglesa. Caminhões subindo no embalo do lado de dentro da estrada. Cruzes onde pessoas morreram. Cachoeiras no meio da estrada. Erosão. Após quinze dias no altiplano, ressurgem os insetos e vegetação. Parece Brasil. Braços moídos. Fadiga. Frear o dia inteiro controlando a bike carregada. Pedras, buracos, tremedeira. Sabemos que estamos imundos. Poeira. Em Yolosa, subida. Toco e eu vamos de carona. Erick encara. Quando nos encontra novamente já bebemos várias cervejas. Um niño dá a dica e não acampamos. Kory Hostel em Coroico, visual panorâmico com piscina e banho. Barato. Trilhas com a bike sem peso. Vales verdes, plantações, colônias de ex-escravos negros. A subida pra La Paz é em van. Espremidos. Estrada punk. A buzina reina nas curvas cegas. Os caminhões passam raspando tinta. Chegando em La Paz, pedal suicidal no rush até o hostel. Louise chega no dia seguinte. Vamos todos pra Copacabana. “Praia” da Bolívia, que perdeu o mar, e territórios por todos os lados para todos os países que o cercam. Lago Titicaca, Sol, e altitude. Cerveja, truchas e pejerrey. Praia com roupa. Bêbados caidos. Carros abençoados em romarias. Cenas ultra kitsch explícitas. Gelatina com chantilly ao invés de sorvete. Chicha ao invés de cerveja. O lago é o berço da humanidade de acordo com a crença Inca. Religiosidade. La Paz de novo. Tropa de Choque na rua. Chollas iradas reclamando aposentadoria justa. Garrafas voam. Gás lacrimogêneo. Diversão latina. Salteñas. Rangos baratos e servidos no El Lobo. Depois, ônibus até Chacaltaya. Estação de ski mais alta do mundo. 5500 metros de altitude. Trancamos as bikes no abrigo. Subimos a pé até o topo. Visual de 360 graus. Neve e gelo. O ônibus pequenino desaparece na estrada. Descemos até as bikes. Chá de coca e preparativos finais. Downhill de 5500 metros até 3660. Em 40 km despencando em um visual de rochas, abismos, e neve. Louise encara a descida sem ter subido em uma bike desde o acidente-de bike. Final de tarde perfeito. Chegamos a El Alto em 4000m. Chacaltaya está coberta de nuvens escuras. Neve. Alivio. Ainda atravessamos um bosque até chegar a autopista. Depois Louise e eu seguimos para o sul novamente. Até o Chile, em San Pedro de Atacama. Um oásis no meio do deserto. Frutas frescas, zero umidade. Pra sair dali, carona de 500 km em troca de um boné. Depois, o ônibus pra Potosi quebra no deserto. Radiador sem água, mangueira rachada. Fugimos pegando carona em um caminhão de gasolina vazio. Que atola poucos quilometros depois. A única coisa que não quebrou foram nossas bicicletas. Roubadas sucessivas. Imprevisibilidade total. Eu rezava pra perder o sentido do olfato. Novas experiências. Rastejamos embaixo da terra , nas minas miseráveis de Potosi. Mal iluminada pelo carbureto, uma estátua do diabo em uma encruzilhada. Dios en el cielo y el diablo en la tierra. Os mineiros acreditam em Deus só quando emergem da escuridão. Não comem, só mascam coca, fumam cigarro sem filtro, e bebem alcóol puro. Mortos-vivos buscando fortuna na rocha. Dinamite. Claustrofobia. Ao sair, alívio e cegueira. Sopas com ingredientes não identificáveis. Eu não tinha comprado os fetos de lhama secos que ela estava me empurrando mas mesmo assim cholla do mercado de brujerias havia me dado um condor. Para buen viaje e um “Vaya con dios.” Acho que foi por isso que deu tudo certo. Não pense, apenas vá. O único perigo de uma viagem épica de bicicleta na Bolívia é fazer toda a sua vida parecer monótona.

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