Só alegria. Mais um pouso perfeito no Pai Inácio, Chapada Diamantina, Bahia.

Sabiá é um cara diferente. Se a maioria das pessoas vive a vida no volume quatro, Sabiá vive no dez. Ele tem um relacionamento com a lei da gravidade diferente de todos nós. Brinca com os maiores riscos a sua integridade física, saltando perigosamente próximo do solo, de prédios, abismos, pontes, e antenas, com um profissionalismo e experiência sem iguais. Sabiá é um cara contagiante que esbanja energia. Segui-lo a pé em trilhas pela Chapada Diamantina é como tentar acompanhar um trem que não para. Em uma conversa gravada após um b.a.s.e. proibido de um prédio em São Paulo, Sabiá conta tudo sobre sua trajetória única. Conheça melhor este super-herói de verdade (como disse muito bem o Formiga).

 

 

 

AS ORIGENS

 

Só eu estou vivendo de B.A.S.E. jump. Nunca imaginei. Acho que no mundo quase ninguém vive de B.a.s.e Jump. Quem vive lá fora é quem fabrica para-quedas. Comecei a saltar de paraquedas com quinze anos de idade. Fazia academia, fazia boxe, basquete, volei, futebol, tae kwon do, ai um dia cheguei, vi uma plaquinha assim: Curso de Paraquedismo Civil. Era a época do para-quedas redondo, que hoje é até proibido, super perigoso. Ai comecei a saltar, minha mãe dava chilique geral, meu pai adorou a idéia. Na época eu já dava trabalho e era um puta mau aluno. Meu pai na época trabalhava na VASP. Quando eu vi alguém em queda livre pela primeira vez eu pirei. Fui de carona pra Boituva, vi os caras caindo, fiquei pirado com aquilo. Cheguei em casa falei, vou ser paraquedista. Com dezoito anos fui campeão brasileiro de T.R. (trabalho relativo). Começou dai. Fui campeão brasileiro, depois vice, a partir de 1990 comecei a fazer filmagem e fotografia em queda livre, e depois comecei a dobrar paraquedas pros outros. Minha mãe vetou geral, ai vendi guitarra, relógio, tudo, pra comprar equipamento. Aprendi a dobrar e dobrava pra ganhar uma grana. Só tinha dois caras no Brasil que fotografavam e filmavam em queda livre. Era em preto e branco, com video-cassete na barriga, com a filmadora na cabeça um cabo enrolado no pescoço. Ai profissionalizei e investi. O único trabalho que eu tive na vida, foi em uma seguradora, por uns quatro anos, quando tive minha filha. Tava com vinte e um. Foi até legal, na hora eu fiquei agoniado, eu falei, perai eu tenho uma filha, eu tenho responsa. E foi quando chutei o pau da barraca, pedi demissão. Vivendo de paraquedismo nunca faltou nada pra minha filha. Larguei tudo e fui. Saltar é caro. Hoje em dia com o preço do salto, não rola. Era tudo mais barato. Saia sábado de manhã, pegava onibus, e as oito já estava dobrando pra poder saltar. Voltava pra casa liso, mas com cinco saltos a mais. E dobrando paraquedas viajei o Brasil inteiro.

 

SKYSURF

Fui sempre me virando. Eu saltei muito, e em 1995 pintou o skysurf na história. Tipo, treinar para filmar skysurf. Fiz três mil saltos, cheguei a ficar em segundo lugar no mundo, em uma etapa do mundial, antes dos X-Games. Com o Pierre Chofard cheguei a ficar em terceiro, e com um suiço, em segundo. Quando eu briguei com o Pierre... pra aguentar uma mulher já é dificil, imagine aguentar um homem. Tem que ficar junto o tempo todo, internado, mesmo hotel, janta junto, é um negócio complicado. Teve algumas duplas que duraram vários anos. Agora todo mundo troca, gente que salta tem decisão, tem vontade, não admite ficar, "tudo bem" não rola, as atitudes são fortes. E pra ter um relacionamento assim você tem que ficar cedendo sempre. E ai eu perdi o interesse pela competição. Competição é saudável pra você melhorar, mas em excesso não é legal. E agora tou competindo de novo, vai entender. Mas um estilo de vida sempre com adrenalina, sempre viajando, mas com o coração na Chapada, desde 1996.

CHAPADA DIAMANTINA

Eu fui, e o espírito falou, aqui é o lugar bom. Ficar bem de cabeça, ficar bem com o corpo. Um monte de amigos, não só b.a.s.e, mas tomar um banho de cachoeira, caminhar. Sou nascido, criado, e aterrorizado em SP, acho que assim eu posso descrever esta cidade. É terrivel ver a galera vivendo assim, se matando no trânsito. Acho o stress vai acabar com os habitantes das cidades. Na Chapada, natureza. Antigamente era saltar, saltar. Foi onde começou a minha filosofia toda de respeito pelo objeto que vou saltar. A cachoeira da Fumaça, o fato de ter andado até lá. De chegar lá, olhar, e nego falar assim, dois já morreram aqui, tu vai querer saltar? Um foi saltar de B.a.s.e e não saltou, outro caiu, e outro se suicidou. O lugar é esse, a potência da natureza tai. Vai tentar essa chance? Para ou continua? Lá tem o lance de ter que andar, ter medo de cobra, andar uma semana. Por mais que tivesse a equipe da Globo, era só natureza. Nunca tinha rolado uma injeção assim, tipo, quem manda aqui é a natureza. E foi a Chapada que fez isso comigo. E a natureza falou assim pra mim, vem comigo que eu cuido de você. Eu me sinto muito bem assim.

 

 

E os saltos em locais proibidos?

Na Califórnia o B.a.s.e. foi proibido porque começou a morrer uma porrada de gente e os caras há vinte anos atrás, uns puta hippies, uns muito doidos, pichavam a montanha, faziam a festa, antes de saltar já apavoraravam. Nem todos os lugares são proibidos nos Estados Unidos. Utah é liberado geral, Arizona também.

 

 

Dos quatro tipos de salto (ponte, antena, montanha, e antena), quais são os mais dificeis?

Ponte e Antena são o seguinte: você não tem o objeto pra bater, já que você salta a favor do vento. Já saltei de torre com vento de cinquenta quilometros por hora. O vento joga longe, junta com o impulso, com a inércia, e o tempo de queda livre, e você vai muito longe. Apesar de também ter o perigo de bater nos cabos de sustentação da torre quando há cabos. Mas se você saltar direito com condição boa, é muito difícil ter algum problema.

Prédio e montanha são os mais casca-grossa, mais do que tudo, por causa do objeto. Além do fator altura, distância para o impacto, quanto mais alto você tá, mais queda livre, mas ao mesmo tempo, mais velocidade você tem. Então se houver uma pane ou qualquer problema durante a abertura você já esta muito mais rápido. E ao mesmo tempo se o salto for mais de baixo e der algum problema você não vai acelerar muito porque já vai chegar no chão.

Prédio e montanha viraram minha especialidade, né? Estou passando dos trezentos saltos de B.a.s.e. Eu já saltei de prédio antena, ponte, e montanha, que é a sigla do B.a.s.e, e também de chaminé, usina hidroelétrica, caverna, e guindaste. Prédio é uma coisa mais especial ainda pelo fato de ser embaçado, conseguir acesso ao prédio sempre é complicado. No Rio de Janeiro, o B.a.s.e. jump é permitido, tem apoio total. A cidade maravilhosa é limpeza, só não saltem da embaixada, que é a maior sujeira, he he he.

 

 

 

 

 

 

Qual é a diferença entre saltar de um prédio em SP e de um morro na Chapada?

A diferença entre saltar em São Paulo e na Chapada é enorme. Lá de cima do prédio a impressão que eu tenho, é que tá todo mundo sufocado. Todo mundo no trânsito tá nervoso, bravo com alguém. A mensagem é o seguinte: São Paulo está um nojo, o último lugar que se salva são as coberturas dos prédios. Essas ruas realmente estão ficando insuportáveis.

Na Chapada, ou em alguma montanha, algum lugar feito por Deus, eu vejo o quanto insignificante eu sou. A montanha não tá nem ai. Daqui a dez ou vinte anos eu morro, e a montanha continua por mais milhões de anos. A gente tá passando por este planeta. A minha filosofia é que a gente tem um período pra ficar neste planeta. A gente nasce, cumpre as obrigações, e acabou. Tem gente que vive cem anos, lindo, um exemplo de vida, gente que chega aos noventa, cem, com saúde, e é pouco. Você imagina quantos milhões de anos demorou pra se formar um lugar como a Chapada Diamantina? Ou uma praia?

Tem um periodo pra curtir o planeta Terra, e a gente vem passa esse periodo e depois vai embora. Eu aprendi muito com essas mortes todas que rolaram. Fazem duas semanas perdi um grande amigo meu, que caiu com um avião e morreu. O cara era o meu brother, e eu fui no enterro dele, e aprendi a não lamentar. Acho que ele fez a missão dele, grande presença no planeta. Tem gente que passa pelo planeta despercebido. Tem gente que vem pra incomodar. Ele foi um cara legal, direito, trabalhador, gente fina, muito doido, piloto, e ele veio, fez a permanência dele aqui, e foi demais. Qualquer hora chega a nossa hora. Quem sou eu? Nós não somos nada.

Eu acho que saltar em São Paulo é uma coisa que ninguém entende. É mais fácil falar, "o cara tá tentando se matar". Eles não entendem que eles são um microorganismo em processo de apodrecimento. Pra mim se eu quisesse me matar seria fácil. Basta saltar sem para-quedas. A idéia não é essa, apesar de ter o risco. O ser humano tem que entender que tem gente que gosta de escalar uma montanha sem corda, ou de voar de cabeça pra baixo em um avião. Isso motiva a gente a viver. As pessoas que fazem esportes radicais, isso é a motivação pra ficar vivo. Ficar em um escritório direto não é razão pra viver. É melhor morrer, isso não é vida. Você não tem qualidade de vida. Saber que eu posso morrer em um salto, ter este medo, este respeito, mas ter a certeza que estou vivendo mais do que muita gente. Graças a me arriscar, eu tive chances e oportunidades que jamais teria. Como ir para o Deserto do Atacama, um astral, um lugar mágico. Fui pra Africa no tempo do apartheid que me marcou muito. Era feio ver uma praia com muro, um trem com vagão separado pra negros. Fui no auge do quebra pau. Marcou pra sempre. Eu tenho essa vida. Tem gente que quer fazer guerra, sei lá.

Diferença enorme entre prédio, montanha. Na cidade todo mundo xingando, gente que despedido, todo mundo brigando, e eu lá em cima, sabendo de tudo isso. Gente que tá brava só porque tá. E ai a grande diferença, que tá nas fotos, a fisionomia antes e depois do salto. É uma coisa que prova que tudo o que a gente conversar, pega uma foto do cara bicudo antes do salto, e depois, o tamanho que é a curtição. O fato de estar antes do salto, nervoso e tal, por mais que já tenha saltado de lá antes, nunca tá totalmente relaxado. Cada salto dá uma vontade de viver, uma vontade de chegar nos setenta anos. 98 pra mim foi um ano terrivel pra mim, perdi muitos amigos, perdi três amigos em um dia, e depois no periodo de uma semana perdi mais três, meu tio morreu em um acidente de helicóptero. Em 98 eu achava que ia morrer. Passei 365 dias de terror. Não diminui os riscos, saltei, viajei o mundo inteiro, fiquei em sexto no X-games, mas foi uma tortura, porque eu perdi amigos em 96, 97, 95, mas 98 foi muito estúpido, foi matando todo mundo. Eu achei que tava na lista, tipo qual será a minha hora. E não fui, por isso que eu saltei a meia-noite, no reveillon. Mas fiquei assustado durante o ano todo. Agradeço a Deus de qualquer jeito, tive uma puta vida que não trocaria por nenhuma outra vida. Não é que eu tenha medo da morte, tenho respeito. Não quero morrer, mas não adianta ter medo. Faço b.a.s.e. jump porque quero viver. A morte leva criança, alpinista, paraquedista, leva o melhor do mundo, leva o pior do mundo, leva gente que não tem nada ver, leva gente legal, leva um padre, leva um empresário que tá no avião da TAM, tanta morte estúpida. Agora, com certeza, no b.a.s.e. o risco é maior, mas do mesmo jeito a recompensa é muito maior, o estilo de vida é um milhão de vezes melhor.

O b.a.s.e jump é a minha vida. Eu sinto prazer em queda livre, em navegar o pára-quedas. O b.a.s.e. foi uma escola pro cérebro. O paraquedismo você aprende muito no começo, mas depois que você vira profissional vira uma coisa normal, tipo dormir, acordar, saltar, quinze, vinte saltos em um dia, zero de medo. Já no b.a.s.e. todo salto é uma lição de vida. Paz. Aprendo que todo mundo comete erros, a gente tá aqui pra aprender. O b.a.s.e ensina isso em todo salto. Nós somos tão pequenos, e o nosso tempo é curto. Tem gente que gasta o tempo querendo brigar com os outros. Tem coisas que marcam, detalhes mais fortes, tipo El Capitan, Cachoeira da Fumaça, o nascimento da minha filha. E as baladas, o filme da vida, cada um tem um diferente, e todos são legais a partir do momento que você quer fazer o bem, ter amigos.

O ERRO NÃO FOI CONVIDADO

No B.a.s.e. eu já cometi alguns erros. Mas no B.a.s.e o erro não pode ser convidado. Eu já cometi erros e agradeço a Deus por ter me perdoado, tipo, obrigado pela chance. Um salto inesquecível em que deu tudo certo, a TV filmou tal, mas de noite quando eu pus a cabeça no travesseiro, disse, como eu fui otário de ter saltado. Um puta vento absurdo. Foi em Porto Alegre na chaminé do Gasômetro. Uma área de pouso péssima, fios de alta tensão. Tinha tudo pra dar errado.Foi lindo. Teve uma outra que eu não coloquei o tirante de peito, quase cai do equipamento, na Chapada, saltando do Pai Inácio. Ninguém percebeu nada de errado. Fui pra casa pensando, quase morri. Deus me permitiu isso. Mas foram poucos.

E a alimentação, como é que é?

Arroz, feijão. Como tudo sem restrição nenhuma. Não sou muito chegado em doce. B.a.s.e. jump é esforço físico intenso. Torre de quatrocentos metros com escadinha pra subir. Enquanto eu subia no topo a turma ainda tava na metade. O esforço fisico faz parte do B.a.s.e. e isso é muito legal. B.a.s.e. jump é malhação. Tem uns objetos mais fáceis, tipo uma ponte, você chega com o carro, salta, e as vezes o carro vai te pegar lá embaixo. Ou um helicóptero. Tem muito disso, mas a grande maioria tem que andar, tem que subir, tem que suar pra chegar no exit point. Prédio tem elevador, né? É até uma tiração de onda. Mas eu prefiro que faça parte uma caminhada, uma ralação, porque é a minha ginástica. E pra aguentar o reggae, é tipo N.Q.V.N.T., conhece? É "No Que Vier Nóis Traça" Tem que se alimentar bem.

Antigamente tinha muito um lance de ir no banheiro antes. Só de pensar que eu ia saltar, eu já ia correndo pro banheiro, depois acostumei.

Cerveja combina com b.a.s.e. jump. Depois do salto tomar uma cerveja, seja lá de prédio, ponte, antena, ou montanha é muito bom.

E o lance de quem está junto, que vai assistir, como é que rola isso?

Já teve episódio com equipe de TV, cara baixo astral e não rolar. Importante o astral, tem que estar com gente legal. Eu tive duas namoradas que me acompanharam muito e pra mim foi a melhor fase da minha vida. Tipo dar um beijo antes de saltar.

Pra elas era o terror. Adrenalina do mais alto grau. Sempre foi muita tensão. Mas ao mesmo tempo sempre me passaram muita energia, nunca foi uma coisa ruim. Eu dependo disso, sou completamente viciado. Uma vez fui passar um carnaval e fiquei com sindrome de abstinência. Descolei um bungee jump.

Não era um b.a.s.e. mas precisava de uma sensação boa. Não é qualquer mulher que entenderia isso. Acho que é bom uma mulher medrosa, as duas namoradas que me acompanharam mesmo, me viram adrenado, com medo, satisfeito.

Como é que é ser o B.A.S.E. #1 no Brasil?

No Brasil menos de quinze pessoas já fizeram um salto de B.a.s.e. Não são quinze b.a.s.e jumpers, mas fizeram um salto ou mais. Agora com a sigla b.a.s.e., ter saltado de prédio, antena, ponte, e montanha, são três. O b.a.s.e. number você conquista depois de saltar dos quatro objetos fixos. No mundo eu sou B.A.S.E. # 468. No Brasil, eu sou B.B.a.s.e. (ou Brasil B.a.s.e) #1. Fui o primeiro a fazer a sigla. O André Chagas é o número dois e o Charles Brian é o número três. Eu fui junto com ele e a gente fez um filme. Ele é super competente, um cara de responsa, quatro vezes campeão do mundo de free-fly. O número um é pra sempre.

E sexo? Melhor antes ou depois do salto?

Sexo depois do B.a.s.e jump é a combinação perfeita. Estar com a namorada e poder curtir a namorada, a mulher que eu gosto, e dar uma gozada espetacular depois de tanta adrena, é a combinação ideal. Pena que nem sempre é possível, né? Droga nem pensar.

Rola assédio?

A televisão cria uma imagem forte. Tem gente que chega pra mim e diz que é meu fã. A gente tem que ser fã do Airton Senna, um cara que mostrou vida, competência e dignidade pro mundo inteiro não só pro Brasil. A tietagem rola de vez em quando. Eu não ligo muito, não penso muito nisso. Pra mim a TV é um meio de dar retorno para os meus patrocinadores. Não assisto televisão. Nos últimos seis meses eu vi televisão quatro vezes, e três vezes ela tava desligada, era só o aparelho.

Tem medo de que?

Medo... Tenho medo de um monte de coisa. Tenho medo de velhice, de sofrer com velhice. Eu acho não tenho nem certeza, é uma coisa que eu não tenho muito clara na cabeça. Eu sou uma pessoa de muita saúde, meu pique é muito acelerado. Não tenho medo de ficar velho, mas quero ser um velho que sobe montanha, entendeu? Saltando ou não, tendo atividade. Esse é o meu grande medo. Meu medo é o ser humano destruir o planeta, nossos parques.

PATROCÍNIO

Eu não tenho pretensão de riqueza. Eu trabalho, tenho dinheiro pra viajar, pra me alimentar, pra pagar a escola da Amanda. Sou privilegiado por ter patrocinadores que acreditam no que eu faço. O Brasil tá passando por um processo de amadurecimento, das cabeças dos empresários. Esse lance de aparecer na mídia, transformar o Sabiá em um veículo de comunicação, tipo um painel orgânico, vivo. Mesmo com isso, a dificuldade foi muito grande, porque no esporte que eu pratico, é uma coisa arriscada, é difícil o empresário querer associar isso com a firma dele. Se eu me machucar, eu não vou estar queimando o filme da empresa dele, isso é difícil pra um empresário assimilar. Tenho apoio de uma confecção, de drink energético, e de óculos pra esportes de ação. Isso é demais, porque o relacionamento que eu tenho com os três é demais. Meus patrocinadores tem só me ajudado. A No Fear, Flashpower, e a Spy sempre me ajudaram E nenhum deles pensa, "capaz que ele se foda, que ele morra", todos acreditam no meu sucesso.

VACILÃO

Tem uns caras com filme queimado, tem um cara conhecido por ter o B.a.s.e. de hospital. Ele se quebrou saltando de prédio, antena, ponte, e de montanha, e tá vivo! Mas é feio, porra, ficar só fazendo cagada.

PIONEIRISMO

O B.a.s.e jump é um esporte sem regras. Quem faz as regras é o atleta. Se quiser saltar de 100 metros salta, se não quiser não salta. O pioneirismo foi uma coisa que me ensinou muito. Tem muita gente que chega e salta só onde todo muito já saltou. Eu não, tem lugar na Chapada onde eu salto que não tinha nem marca de facão. No começo, nos Estados Unidos, saltando de torre, me falavam, salta, vai pra lá, navega, e pousa ali. E quando chega na Chapada, no Pai Inácio? Lugares onde ninguém havia saltado antes. Ai o bicho pega. O pioneirismo me ensina mais ainda. É a parte do tipo, faz o que for, mas faz direito. Foram mais de cem lugares no Brasil onde ninguém havia saltado.

PAVOR EM EL CAP

Quando eu saltei do El Capitan (1000 metros de altura) eu não sabia se eu ia morrer, se eu ia ser preso, se o paraquedas não ia abrir, se eu ia bater na parede, eu não sabia o que tava acontecendo comigo aquele dia. Eu passei mal. Tava com medo de altura, tava com medo de ser preso. E foi a maior satisfação da minha vida aquele salto. Os gringos me apavorando, "Sabiá, se eles te pegarem voce vai se dar mal. " Saltei as duas horas da manhã. Na época eu tinha um paraquedas com reserva e saltei sem. Eu tava acostumado a saltar sem. Eu já imaginando e se essa porra der pane. Doze segundos de queda livre...Lá rola velocidade terminal, duzentos quilometros por hora. Medo da policia, medo de quebrar o pé, medo de bater na parede, e a turma apavorando, "já morreu um bocado aqui". Pavor geral, completo. Medo de se quebrar, de morrer, da polícia. Já o melhor, foi a Fumaça da segunda vez. Tinha helicoptero pra me pegar lá embaixo. Eu sabia que se eu me arrebentasse ele me levaria pro hospital. Da primeira vez se eu me quebrasse lá embaixo iria morrer lá.

ÍDOLOS

Frank Gambalie, um louco de marca maior, um cara muito casca-grossa, o cara que me levou pro El Capitan. Um cara que eu tiro o chapéu, faz altas manobras. Sem dúvida nenhuma um dos melhores b.a.s.e. jumpers do mundo. O outro que eu admirava muito, que já morreu Bob Neely. Ele tava sozinho e ninguem sabe como foi. Bob Neely era um cara que saltava bem pra caramba, mas dobrava o para-quedas em dez minutos, era mais porra-louca. O Frank é um cara que me levou pra um monte de lugar, El Cap, também me levou em Monte Brento, na Itália, perto de Veneza. O Frank saltou em Nova Iorque, é um b.a.s.e. jumper completo, um cara que ama o esporte. Ele tem o espirito b.a.s.e. um figura, muito doido.

E os flips?

Primeiro tem que ter altura, pra fazer manobras. Graças ao Bob Neely, que morreu, que me ensinou. Comecei a dar front flip em antena. Tem que ter condições de fazer o loop e terminar. Tem que estar independente do que for, de barriga pra baixo na hora do comando (abertura do pára-quedas) . Uma vez sai da ponte, fiz o back looping, parei de joelho e comandei do jeito que tava, sabendo que tava errado, mas tava a três segundos do impacto. O para-quedas abriu beleza, mas tipo, oooopa! passei do ponto, dei um pouco mais de impulso do que devia. Fiz só um numa montanha, em Chamonix, na França. Na Chapada estou me preparando pra mandar um front loop. No Brasil não rola por falta de objeto. Mas lá eu sei que dá pra gastar três segundos e meio pra mandar o front loop e depois poder comandar. Mas sobe um degrau técnico muito grande tentar fazer manobras.

GROUND RUSH

O comando é no olhômetro. No olho, geral.

Do pilotinho até o velame, é um lance que precisa ser checado, re-checado. Checo tudo, cada costura. Qualquer coisa anormal, para, checa. Ontem, dobrando, encontro um galho dentro do para-quedas. Porra, vai saber se aquele galho me resolve rasgar o para-quedas no meio. Ai para tudo. A atenção é grande porque é uma chance só.

Pra fazer dois segundos de queda livre, aquele visual de janelinha passando, pra ter esses dois segundos precisa acordar de madrugada, subir trinta andares de escada, então o b.a.s.e. pelo fato da adrenalina ser tão forte nesse curto espaço, o salto começa desde que saio de casa, desde a dobragem. Na hora de escolher o pilotinho, usar ou não o slider (que retarda a abertura). Pra cima de cem quilometros por hora você tem reduzir a velocidade antes de abrir o para-quedas. Quando você tá a menos de cem quilometros por hora quer dizer que tá baixo. Ground Rush é ver o chão crescendo. É incrível como no espaço de um segundo dá pra pensar em tanta coisa. O ser humano não prepara a cabeça pra pensar em um segundo. No começo é muita adrena. Pra quem é inexperiente o cara jura que vai morrer, é mais pra pânico. Até que o cara começa entender que um segundo vai demorar. É muito comum o iniciante saltar e comandar, e depois jurar que fez um ou dois segundos de queda-livre. Tipo throw-and-jump, e na cabeça do cara o cara pensa que fez queda livre. Ai vê o video e percebe.

EQUIPAMENTO E FÉ

Pra mim, check de equipamento hoje em dia é o seguinte: eu tenho que ter certeza absoluta na dobragem que meu equipamento tá beleza. Que apesar dele tá beleza, ele tá cem por cento beleza. E apesar de estar cem por cento beleza, ele pode cismar de dar um 180 que nem foi no Camelo. O que aconteceu no Camelo, o para-quedas foi virando conforme as linhas foram esticando, o vento virou o velame.

Não foi um erro de dobragem. Medo do equipamento não pode rolar. Um check importante é se você está vestido corretamente. A mochila, os tirantes de perna e de peito, tudo beleza. A única coisa que eu me preocupo na hora do salto é se estou vestindo corretamente o equipamento, se estou travado. Outro perigo é o pilotinho estar livre, saindo de cima da mão e indo pras costas, pra não ter nenhum problema tipo enroscar. Depois que um bocado de coisa aconteceu em minha vida, de um tempo pra ca, passei a ter muita fé. Um lado espiritual. Acreditar em Deus. Uma reza é bom, lembrar no anjo da guarda. Sempre muito respeito por onde eu estou. As coisas, a natureza, até um prédio, são dois ou três caras no mundo que tem mais salto de prédio que eu. Sempre agradeço, o objeto apesar de ter sido construido pelo homem, eu acredtio que deve ter uma força. Do mesmo jeito que dizem que tem casa mal assombrada, deve ter. Seja o que for eu respeito, vai saber se não tem, e como o segredo da vida é a morte e só vamos saber depois.... Superstição eu também acredito. De amarelar só por amarelar nunca. Mas tem um lance de vestir o sapato do lado direito primeiro, sei lá.

VAI PARAR?

Não dá pra saber. Tem tipo de salto que eu já parei, ne? Saltar de quarenta, quarenta e cinco, cinquenta metros, não faço, e acho até, porra, que fiz demais.

É muito importante você admitir o erro. É bonito isso. Tem gente que não admite. Não, fiz cagada e fim de papo. É bonito quando não tem consequencia grave. Você aprende com isso. As crianças já são induzidas a esconder o erro. A Amanda, minha filha entende o que eu faço. A minha grande falha neste mundo é não poder estar mais com a minha filha. Mas ao mesmo tempo ela sabe que o pai dela é uma pessoa diferente, que gostaria de estar com ela mais tempo. Mais ela sabe o quanto eu fico agoniado em São Paulo. Ela foi pra Chapada sabe o quanto é importante a natureza. Ela sabe o perigo, sempre respeitou. Desde pequena vem acompanhando isso, e acho isso muito legal. A mãe entende, já fez cinquenta saltos de para-quedas. Ela é bem esclarecida, e eu espero, a gente não sabe, né?, que ela saiba dar valor as coisas. Ela passou a entender, mandar brinquedo pra criança pobre, a ir na Febem, a dar valor a vida, a natureza, tentar preservar, eu acho que essa parte eu tento passar. Eu todo dia agradeço a Deus pela minha saúde e pela minha vida. Eu e o Zé Américo sempre comentamos isso nas trilhas, quero ver o milionário que vive igual a gente, o cara tá de Mercedes que custa quinhentos mil dólares desfilando em SP, legal, pô o maior barato, mas talvez esse cara que tá ali com três seguranças, com medo de ser sequestrado, e a vida passa a ser um pânico pelo fato de ter tanto dinheiro. Eu não tenho nada disso.

Eu tenho uma mentalidade de respeito. E tenho muito o que aprender. Eu era radical. Ouvia heavy metal e o resto é tudo lixo. Hoje em dia não, ouço de tudo, adoro música clássica, de tudo.O heavy metal é legal mas escutar um Mozart é demais também. Uma filosofia que estou aprendendo e tentando passar pros outros, é de paz.

A minha ex que falava, "e você acha isso bonito?"

 

A turma de para-quedista ve B.a.s.e. jump e tenta saltar de avião de altura baixa, achando que é legal, pela adrena. O cara salta de 1200 pés e não sabe a merda que está fazendo. O cara tá em velocidade terminal, entendeu? Então, do tipo, don't try this at home... mas toda hora tem umas dessas. B.a.s.e. jumping, uma vez eu disse isso, não sei quando foi, mas é o seguinte: Existem esportes radicais, e tem o b.a.s.e. jump. Tem que conhecer as técnicas, ter experiência, saber dobrar o pára-quedas, navegar bem. Páraquedismo já é considerado um esporte radical. Tem vinte mil paraquedistas no Brasil, mas só três base jumpers...

 

Glossário B.A.S.E. JUMP:

B.a.s.e. Jump: b.a.s.e. quer dizer building antena span e earth. Ou Prédio, antena, ponte, e montanha.

Ground Rush: a velocidade em que o chão cresce, devido a velocidade da queda, sensação de velocidade extrema.

Pilotinho: pára-quedas pequeno, jogado pela mão do b.a.s.e. jumper para acionar a abertura do pára-quedas principal.

Exit Point: o ponto de saida do salto de b.a.s.e. Local do salto.

 

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