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Ilha
de Trindade : Aonde Você Não Pode Ir
A
Ilha de Trindade é onde o Brasil começa (além
dos penedos-desabitados-de São Pedro e São Paulo).
A ilha oceânica fica a um terço do caminho entre
o Brasil e a África e fica no extremo leste do território
brasileiro, no meio do atlântico sul.
Fui
parar lá por acaso. Quarenta e oito horas antes da partida,
recebi um telefonema do Fernando Costa Netto, que na época
era diretor de redação da Trip. Ele disse que a
revista havia conseguido permissão da Marinha Brasileira
para acompanhar uma missão de abastecimento ao território
que fica no extremo leste Brasileiro, no atlântico sul.
A
idéia original era convidar surfistas profissionais para
surfar pela primeira vez nas ondas da ilha. O capitão do
navio não topou a idéia, alegando que a Marinha
não poderia se responsabilizar pela segurança dos
surfistas em uma ilha a três dias do continente. Mesmo que
não pudessemos embarcar pranchas de surfe, éramos
bemvindos na viagem. A Trip dispensou o fotógrafo de surf
e me convidou.
Eu
nunca havia viajado de navio antes, então soou como uma
boa oportunidade. Após seis horas de ônibus até
o Rio, fomos até a base da Marinha na Iha Fiscal, famosa
pelo Baile da Ilha Fiscal.
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| Pegamos
nossa documentação e pedimos indicações
até nos encontrar frente a frente com o Sirius, o navio
hidrográfico que seria nosso transporte até a Ilha.
Ao contrário dos navios de guerra, o Sirius era pintado
de branco. A aparência era acrescida por uma enorme quantidade
de radares, antenas, e outros equipamentos de alta tecnologia
encontrados a bordo. Fomos recebidos por um oficial que mostrou
nossa cabine. Era em um nível inferior, não muito
acima da linha d'água. O cheiro de sal misturado com óleo
diesel estava em toda parte. O navio é quase inteiro de
metal, e dar uma volta pelos níveis e passagens diferentes
já era interessante. A construção sólida,
com suportes superdimensionados deixavam uma coisa bem clara:
o navio era especial.
Tínhamos
algum tempo livre, então saimos da base, compramos barras
de cereal, bebemos umas cervejas, e pegamos um táxi até
os Arcos da Lapa, onde encontramos o fotógrafo Marcos Prado
na Fundição Progresso. Era a abertura da exposição
dele sobre os Carvoeiros. A montagem impressionava, com iluminação
caprichada, trilha sonora por Caetano Veloso, e ampliações
em preto e branco belíssimas. Algum tempo depois uma das
imagens ganhou o segundo lugar do concurso Internacional Nikon.
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| Não
podiamos voltar muito tarde, então voltamos á base
naval, mostramos nossos papéis, e dormimos em nossa cabine,
que tinha um ar condicionado poderoso. Levantamos âncora ao
nascer do sol, e fomos convidados para um excelente café
da manhã com os oficiais. Algumas horas depois chegávamos
a Cabo Frio, onde buscaríamos algo essencial para esta viagem:
um Helicoptéro Esquilo bi-turbina, que foi rápidamente
acorrentado ao heliporto, com suas hélices dobradas para
trás. Fomos apresentados aos pilotos, e jantamos com o capitão
do navio. |
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Iamos
sentido leste, em direção a ilha. Sobre os três
dias que demoramos para chegar lá, me recordo de ficar
assitindo meu suco de laranja no café deslizando sobre
a mesa, indo e voltando, e lembro de uma tempestade próxima
a Bacia de Campos. Não dava pra ver coisa alguma pela pequena
escotilha da nossa cabine, e tudo ficava azul e cinza alternadamente,
a medida que nossa cabine ficava submersa ou não. O navio
estava herméticamente fechado, e ninguém podia sair
no convés. Logo após o café fui correndo
ao banheiro me livrar dele, encontrando outros marinheiros mareados
como eu. Vomitar e saber que não era o único a estar
passando mal fez sentir-me melhor.
Fernando
e eu conhecemos bem a rotina do navio, com despertar antes das
seis da manhã, treinamentos para emergência, e todos
as outras embarcações avistadas sendo chamadas de
"alvos". A tripulação do Sirius era bem
carioca, e todo mundo estava bem humorado. Rolava até um
pagode improvisado no heliporto no final de tarde.
A
comida era ótima, e logo aprendi que ao contrário
do que eu pensava, na marinha não se come muito peixe.
Na pressa antes de partir, e sabendo que teria seis dias em alto
mar, apanhei um livro de bolso era o livro do Tom Clancy's Clear
and Present Danger, que mesmo não sendo tão
interesante como eu esperava, detalhava bastante sobre os helicópteros
americanos utilizados em operações anti-tráfico
na Colômbia, o que me ajudou a fazer menos perguntas idiotas
aos pilotos do helicóptero que estavam a bordo.
Na
manhã do terceiro dia subi ao convés por volta das
quatro da manhã para aguardar que a ilha aparecesse no
horizonte. Um vigia com binóculos poderosos avistou terra
e em seguida o formato da ilha começou a ficar mais distinguível.
O sol apareceu e a luz estava linda.
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| Ancoramos
a uma boa distância da ilha, mas dava pra perceber bem suas
montanhas e aparência rochosa. Poucas árvores visíveis,
excetuando próximo da base da ilha, chamada POIT (Posto Oceanográfica
Ilha de Trindade). Todo mundo que desembarca na ilha o faz de helicóptero.
O único material transportado em embarcações
menores é a carga que abastece a ilha, e o lixo que é
levado de volta. Um pequeno barco preso a um cabo, chamado "cabrita"
é utilizado para esta tarefa. A ilha é muito escarpada,
e logo após a praia, o fundo despenca mais de 5000 metros.
A ilha é um vulcão extinto submerso, parecido com
um iceberg, com menos de 10% de seu tamanho acima da superfície
d'água. De oito quilometros de comprimento acima do mar,
a ilha atinge cinquenta km quando chega ao fundo do mar. |
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| Ficamos
assistindo fascinados ao trabalho da equipe do helicoptéro.
Uma equipe em um zodiac (inflável) com mergulhadores estava
de prontidão, caso o helicóptero caísse na
água. No navio, uma equipe de incêndio ficava a postos
com mangueiras de espuma química. Um acidente de helicóptero
em um navio cheio de combustível pode ter consequências
desastrosas, então todas as precauções são
tomadas. É proibido fumar em todo o navio durante operação
do helicóptero. O pior trabalho fica para os marinheiros
da equipe de resgate que tem que vestir as roupas à prova
de fogo e ficar suando durante todos os vôos, prontos para
remover os pilotos da aeronave em caso de incêndio. |
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Pouco
tempo depois era nossa vez de desembarcar na ilha. Meu papo com
os pilotos sobre fotos em helicóptero, vôos de balão,
e outras experiências aéreas foi um erro grave. Eles
obviamente tinham um enorme prazer em demonstrar exatamente o
que um Esquilo bi-turbina é capaz. Eu não fiquei
muito feliz em descobrir que podiamos voar em todas as posições
menos horizontal. O vôo foi emocionante e os pilotos estavam
visivelmente se divertindo. Demos a volta inteira na ilha, e conseguimos
ver o terreno acidentado e muito colorido, cheio de rochas e escarpas
e o que somente poderia ser chamado de desastre topográfico.
Picos, torres, abismos, e todo tipo de terreno estavam representados
ali.
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| Restava-nos
muito pouco tempo na Ilha. A Marinha não faz cruzeiros marítimos,
e nossa viagem era uma missão de abastecimento. O navio ficaria
ali somente o tempo necessário para abastecer a ilha, recolher
o lixo, e trocar metade dos 30 voluntários que passam três
meses na ilha. O trabalho eficiente da Marinha significava menos
de trinta horas para conhecer o máximo possível. |
| O
negócio foi correr muito, e foi o que fizemos. Fomos apresentado
aos capitão do POIT e aos voluntários que ficavam
na ilha. A base era impecavelmente bem cuidada, e consistia em algumas
casas, um pequeno hospital, e um refeitório e uma grande
cozinha, tudo bem arrumado. |
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Após
as apresentações, saimos caminhando para explorar
a ilha. Descemos pela costa e pouco depois encontramos os únicos
civis da ilha. Eram dois voluntários do Projeto Tamar,
a ong das tartarugas marinhas. O trabalho deles era contar as
espécies, ovos, ninhos, e documentar tudo. Assistimos ao
nascimento de tartaruguinhas, e observamos sua fragilidade (somente
5 de cada 1000 chegam a idade reprodutiva). O trabalho deles era
muito bacana, ficar em uma ilha semi-deserta com praias paradisíacas,
mas era puxado. Eles ficavam noventa dias, a mesma duração
que os voluntários da marinha. Os marinheiros ganhavam
o dobro do salário para permanecer na ilha, uma forma de
economia também, já que não há no
que gastar por lá. Todos pareciam estar muito satisfeitos.
Além
da missão de assegurar a soberania do território
brasileiro, a Marinha mantém uma estação
metereológica na ilha. Eles soltam balões, monitoram
e transmitem informações sobre o tempo no atlântico
sul. |
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| Subimos
uma face de "scree" vulcânico, onde se consegue
dar dois passos para frente antes de deslizar um para trás.
Foi cansativo, mas ao chegar no cume tinhamos uma visão privilegiada.
Para trás, o cone de um vulcão extinto. Diante de
nós, uma crista com abismos vertiginosos para os dois lados.
O helicóptero passou perto, mais abaixo de onde nos encontrávamos.
Eu poderia jurar que vi alguém acenar, e vim a descobrir
depois que havia mesmo, o capitão do Sirius. |
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Parte
da culpa pela erosão e falta de vegetação
na ilha é do astônomo Edmund
Halley, mais famoso pelo cometa que leva seu nome do que por
ter deixado as cabras que habitam a ilha. Elas escaparam há
muito tempo, se tornaram selvagens, e devoraram grande parte da
cobertura vegetal da ilha. Ainda resta alguma, incluindo uma floresta
de samambaias gigantes que pode ser chamada de jurássica.
O pessoal da Marinha caça algumas cabras, mas parece que
elas estão ganhando. Outra espécie fora de controle
são os caranguejos, que dominam a ilha. Durante o dia você
os vê por ai, mas a noite parece um filme de Hitchcock.
Todos os caranguejos saem e para caminhar é necessário
chutá-los do seu caminho. Além das cabras, outras
espécies introduzidas pelo homem são ratos e baratas.
Eu
havia pesquisado um pouco sobre a ilha antes da minha partida,
e li sobre várias lendas e mitos. Eu estava particularmente
interessado em um deles: o Tesouro da Catedral de Lima. De acordo
com algumas fontes, vastas riquezas da capital do Peru haviam
sido escondidas na ilha e ninguém havia as encontrado ainda.
Procuramos bastante, mas não achamos nada além de
mais caranguejos.
Caminhamos
em direção a base, parando em uma fonte natural
para beber água e encher nossos cantis vazios. Fizemos
uma visita rápida ao cemitério, onde supostamente
não há corpos enterrados, somente cruzes para pessoas
que desapareceram na ilha. Pelo que nos contaram, alguns se afogaram,
outros escorregaram em abismos, e alguns foram atingidos por ondas
oceânicas, conhecidas por "onda camelo" na ilha.
Não parecia um mau lugar para descanso eterno. A vista
para a baía era formidável.
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Chegamos
ao outro local onde há marca da presença do homem.
O navio Chinês Hwa Shing está encalhado na ilha.
A história não é muito clara, mas parece
que a tripulação filipina matou o capitão
e cozinheiro do navio, e se chocaram com a ilha, onde o navio
permanece até hoje. Com a maré seca, entramos no
navio e demos uma olhada. Tudo estava escorregadio e havia algo
estranho no ar, mas não ficamos lá tempo suficiente
para descobrir o que poderia ser. Encorajados pelo mau cheiro
do local, saimos rapidamente dali.
As
ondas estavam perfeitas, o que nos fez desejar por pranchas e
ficar observando e surfando em nossas mentes. |
| Partimos
e pedimos dicas para ir até a floresta de samambaias gigantes,
mas escurecia e a chuva se aproximava da ilha. Quando a noite caiu
as estrelas pareciam projetar sombras, de tão intensamente
que brilhavam. No heliporto da base, ficamos surpresos com a enorme
quantidade de caranguejos que praticamente cobriam o chão.
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Pela
manhã, fomos caminhar mais um pouco, mas logo era nossa
vez de entrar no helicóptero para retornar ao Sirius. Pela
primeira vez eu havia desembarcado em um local onde dinheiro e
documentos não eram necessários e a natureza seguia
seu curso de forma intocada. Com um misto de felicidade e tristeza
vi a ilha encolher em direção ao horizonte. Mas
algo estava errado, o sol deveria estar do outro lado... Estávamos
indo para as ilhas de Martim Vaz, a 48 km de Trindade. Se a ilha
de Trindade é escarpada, Martim Vaz, chega a ser vertical.
A única maneira de desembarcar é de helicóptero,
mas não tinhamos permissão para ir. Mesmo assim,
não há muito para ver por ali, mas o local ficará
para sempre em minha memória como a imagem do isolamento.
Não
aconteceu muita coisa durante a viagem de volta ao continente.
Dormi bastante, fotografei uma cerimônia com a bandeira
brasileira e uma celebração de uma data naval histórica.
As melhores emoções foram na chegada ao Rio de Janeiro.
Um dos oficiais que havia ficado por três meses na ilha
não havia visto seu filho, que havia nascido logo após
a sua partida. Tive a oportunidade de fotografar o primeiro encontro
com sua esposa e o filho de três meses, o que acabou ilustrando
a abertura da matéria da Trip. Mais do que uma matéria,
foi uma experiência única. Viajar com o Fernando
foi um prazer e tivemos a chance de viajar juntos mais algumas
vezes depois. Entre as lendas e mitos da ilha de Trindade, há
uma em que escolhi acreditar: a que diz que quem bebe água
da fonte da ilha está destinado a retornar. Espero que
seja verdade, e aguardo ansiosamente uma nova oportunidade. |
texto
e fotos copyright © Ignacio Aronovich
agradecimentos
especiais : Marinha
do Brasil
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